O QUE A LOGÍSTICA EUROPEIA TEM A NOS ENSINAR – UM CASE DA ALEMANHA

No início deste segundo trimestre de 2017, acompanhei um grupo de executivos de uma gigante mundial da indústria química e um seleto time de distribuidores dos seus produtos no Brasil, em uma missão de visitas a sua planta-sede na Alemanha e a mais quatro outras empresas, que são os principais players do varejo nos segmentos de móveis e decoração, supermercados e materiais esportivos.

O objetivo dessa missão foi promover o conhecimento e apresentar a todos, executivos e distribuidores, as melhores práticas e o que se tem de mais avançado em tecnologia e gestão de operações logísticas na Europa.

O meu papel foi o de ser o facilitador junto às empresas visitadas e de explanar os detalhes técnicos de cada operação, além de suportar tecnicamente o grupo em suas dúvidas e questionamentos, nas interações com os profissionais que apresentaram as suas operações e, principalmente, de suscitar, nos distribuidores brasileiros, o interesse pela modernização de suas atividades, com base no que estava sendo depreendido à cada visita.

Dimensões e abrangências

Primeiramente, é indispensável destacar que as dimensões de algumas das operações são surpreendentes, como, por exemplo, um CD (centro de distribuição) com instalações acima de 400 mil metros quadrados e com uma quantidade próxima de 1 milhão de pallets armazenados, cuja extensão operacional supera as fronteiras do país.

Logística integrada

Um dos maiores aprendizados foi sobre o quanto uma cadeia colaborativa e integrada pode proporcionar um diferencial competitivo.

Em uma das empresas, a responsabilidade é compartilhada ao longo de toda a cadeia, de modo a transformar fornecedores em minicentros de distribuição intermediários. Explico: Custos são fatores importantes em quaisquer operações, por isso mesmo alguns fabricantes de baixo volume de fornecimento entregam suas mercadorias a outros fornecedores com maior capacidade e frequência de atendimento.

Após um período curto de armazenagem em suas plantas, esses fornecedores maiores despacham cargas completas até o CD do cliente, reduzindo significativamente as despesas com transportes para os fornecedores menores.

Outros dois fatores que contribuem para a redução de custos na cadeia é o uso em larga escala de ferrovias e hidrovias, que, como em toda a Europa, funciona excepcionalmente bem e a preços muito atrativos, integrando-se perfeitamente com a malha rodoviária, sem atrasos e com baixíssimos níveis de avarias. Alguns CDs têm seus próprios terminais de contêineres.

Gestão, planejamento estratégico e treinamento

Todas as empresas, indistintamente, têm gestão total sobre as suas operações e a dos seus fornecedores. Isto significa que cada etapa do processo tem seus níveis de serviço e custos perfeitamente projetados, com base em planejamento e em medições regulares de toda o processo, suportados por estudos frequentes sobre performances e potenciais de melhoria. Há times de profissionais específicos integralmente dedicados a essas atividades.

Para isso, todas recorrem ao uso de ferramentas modernas, chegando, em alguns casos, ao refinamento de se utilizar mais de um WMS (Warehouse Management System) para operações distintas no mesmo centro de distribuição, além de outras ferramentas que já mencionei em artigos anteriores.

Desvios de qualquer natureza, portanto, são pronta e criticamente analisados, de forma a se identificar a causa-raiz e imediatamente estabelecer um plano de ação corretiva, acompanhado, se for o caso, de reciclagem dos profissionais envolvidos.

Programas robustos de treinamento são, por isso mesmo, amplamente aplicados em todos os níveis e são fatores que fazem a diferença. Transmissão de conhecimento e atualização constantes preparam seus profissionais para todos os desafios, tornando-os experts em suas respectivas atividades.

Tecnologia

O uso de tecnologia em larga escala é outro fator que impressiona, tanto na movimentação e armazenagem, quanto nos controles de tarefas.

Apesar da dependência de equipamentos tradicionais, tais como empilhadeiras elétricas, selecionadoras de pedidos e transpalleteiras para as operações mais corriqueiras, como carga e descarga de veículos ou alocação/retirada de pallets em estruturas metálicas, investe-se pesado em hardware e software, para tornar disponível o que há de mais moderno na computação e em outras tecnologias eletrônicas dedicadas à logística.

Transportadores autônomos, monorails elevados, que transportam gôndolas suspensas com mercadorias, sorting de caixas e equipamentos automáticos de armazenagem operam simultaneamente em diversas regiões de um CD, promovendo uma integração impressionante entre as atividades e imprimindo velocidade e garantia às operações.

Comandos auxiliares, tais como put ou picking to light, códigos de barras e QR codes são utilizados em aplicações que se complementam, segundo as tarefas desenvolvidas.

Além da administração em tempo real das distintas etapas, raras ocorrências de gargalos ou de desvios são fácil e rapidamente solucionadas, dada à imediata disponibilidade de grande quantidade de dados e informações e times especialmente preparados para essas emergências.

Defasagem do modelo brasileiro – O longo caminho à frente

Impossível não fazer comparações com as operações correntes no Brasil, pois, na extensa jornada que venho trilhando no desenvolvimento de projetos logísticos, pude conhecer operações da “idade da pedra”, quando comparadas ao avanço da logística em países desenvolvidos.

Na contrapartida, sinto grande alívio por também conhecer empresas que já se desenvolveram e se assemelham muito, no uso da tecnologia e na qualidade de resultados, às demais empresas além-fronteiras.

Por isso mesmo, quero fazer o que fiz com os distribuidores que participaram da missão à Alemanha, instigando as empresas a pensarem nos seguintes pontos:

Tenho domínio completo e conheço profundamente todas as peculiaridades da minha cadeia de suprimentos (fornecedores – minha operação – clientes)?

Conheço detalhadamente os custos de cada etapa dessa cadeia?

O meu planejamento é refinado e tem ajudado efetivamente na obtenção dos resultados esperados?

Tenho dedicado tempo e investido o suficiente no meu desenvolvimento técnico pessoal e dos meus colaboradores?

Onde estão as ineficiências da minha operação e qual tecnologia devo aplicar para reverter esse quadro?

Tenho certeza que atrás dessas perguntas há muitas outras e que, à medida que se dispõe a conhecê-las, um mundo novo se desvela para a estruturação e o crescimento do seu negócio.

Até a próxima!

Publicado originalmente em: http://www.logweb.com.br/colunas/o-que-logistica-europeia-tem-nos-ensinar-um-case-da-alemanha/

O QUE A LOGÍSTICA EUROPEIA TEM A NOS ENSINAR – UM CASE DA ALEMANHA

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